A bujarrona é por definição uma vela menor triangular e fixa, que fica a frente do veleiro, sua função é bem simples, ela deve proporcionar uma potencia adicional a vela principal. Naquela época eu não fazia idéia que estava sendo convidado a participar de uma sociedade, nada secreta nem tão pouco discreta, eu seria a parte que faltava, não era essencial é verdade, mas uma parte que falta.
Pela definição do capitão JB, sou um aventureiro, cheio de energia, com uma personalidade ativa e decidida, não vejo graça numa vida sem desafios e sendo um lider por natureza, atraio as outras pessoas com o meu entusiasmo. Mas sempre tenho de tomar cuidado por que sou uma pessoa extremamente teimosa.
Magno é um sujeito baixinho, nascido em Pimenteiras-PI, veio para o Rio de Janeiro ainda cedo, estudou em colégio de padre, foi seminarista e quase se ordenou padre, largou a religião pela grande paixão de sua vida, Melissa, uma noviça que todos os dias assistia as missas na capela do seminário.
Magno é um homem muito ligado a família e aos amigos, emotivo e religioso costuma exagerar nos seus cuidados, um homem prudente e de conselhos sábios, tem muita energia e por isso mantém-se sempre atarefado, por hora fazendo Nicolas e Jorge trabalharem juntos e em outros separando os dois, sempre absorvido por sua observações tem uma incrível curiosidade, buscando sempre o entendimento das coisas, planejador e extremamente racional, por isso se assemelha ao mastro, se Magno não estiver num bom dia ou estiver em desacordo com Nicolas e Jorge pode esquecer, será melhor ficar em terra firme.
Magno se casou com Melissa e teve uma filha chamada Isadora, que é missionária religiosa, está na África junto com o noivo que eles ainda não conhecem pessoalmente e que tem um nome muito difícil de se gravar, Melissa é uma senhora muito espirituosa, uma verdadeira mãezona, esta sempre as voltas com os afazeres da domésticos, cozinhando e limpando, servindo a “Deus na pessoa do próximo”, como costuma dizer.
Se Nicolas é o sujeito mais hilário que já conheci na vida, certamente Jorge é o mais inteligente, muito culto gosta de conversar e apesar de sua grande instrução, mantém-se sempre acessível, porém, numa disputa coloca-se de igual para igual com qualquer pessoa. Não se sente nem busca ser melhor nem pior que ninguém, é uma pessoa de mente aberta.
Jorge é o tipo de pessoa que não gosta de ficar parado, pois tem grande agilidade mental e física, pratica artes marciais, sendo mestre em muitas delas. Gosta de passar seu tempo lendo e adora estudar, não deixa passar uma oportunidade de viajar, já foi mochileiro na Europa, Ásia e Oceania. É daqueles que possui uma paixão invejável pela vida. Não tem muita diplomacia na hora de dizer certas verdades, julgar ou criticar, costuma fazer isso à queima roupa.
Jorge é um solteiro convicto, desiludido com um amor na juventude, vive para ser de todas as mulheres, não sendo de nenhuma delas ao mesmo tempo, sua energia e inteligência, sua dedicação em tudo que faz o torna a retranca, uma longa viga paralela ao convés, que aliada ao mastro faz a vela principal captar os ventos. Em um veleiro os marinheiros podem girar a retranca em 360 graus no plano horizontal, para permitir que a vela principal obtenha o máximo possível de vento.
Nicolas é o sujeito mais hilário que já conheci na vida, sua própria definição: - “Sou um nego vadio!”. Pura conversa fiada, um garoto trabalhador e incansável, dinâmico, inteligente e por demais criativo, possui muita disciplina e está sempre disposto a colaborar e ajudar os outros, senhor de praticidade incrível, capaz de consegue executar quaisquer tarefas ainda que cansativas ou monótonas, daquelas que a maioria das pessoas costumam recusar. Não admite interrompido quando está trabalhando, e é critico por demais com si mesmo e com outros.
Nicolas tem 25 anos, filho adotivo de Dalton e Aretusa, naquela semana estava namorando uma moça chamada Carina, já foi de tudo um pouco na vida, engraxate, mecânico, faxineiro, pilota e conserta pequenos aviões, um hacker e viciado em esportes radicais, foi expulso do exercito por “atividades paralelas” (mercados negro), não há nada que se mova que ele não possa consertar ou guiar, nem tão pouco, algo que esteja a venda que ele não possa comprar e re-vender pra você.
Esporadicamente ajuda os pais no trabalho social, faz faculdade de mecatrônica na USP e assevera que o pior castigo para ele seria se casar. Semelhante a vela principal, que captura a maior parte do poder eólico necessário a propelir o veleiro, Nicolas é a força em pessoa, nada esta longe demais, ou difícil demais ou impossível a ponto dele não poder alcançar, fazer ou conseguir, quando todos ameaçam desistir ele se irrompe e conclama a todos a perseverar.
Dalton é um sujeito muito peculiar, médico cirurgião renomado, fez parte dos médicos sem fronteira, tem uma estatura mediana, uma barriga muito saliente, completamente sedentário, um pouco careca e com um senso de humor fantástico, muito atencioso, e apegado à família aonde vai leva sua mulher, não teve filhos naturais, mas adotou quatro crianças, possui um senso paternal muito forte, é do tipo de pessoa que gosta de se sentir útil e necessário, de convicções firmes não costuma voltar atrás em sua palavra.
Apesar de muito ocupado, nunca deixa de se reunir com todos, adora cachaça e poker, fuma cigarros e charutos como uma criança come doces em festa se São Cosme e Damião, semelhante ao leme do veleiro, que fica sempre escondido debaixo d’água e na parte traseira, nunca se importa em aparecer, adora os bastidores longe das confussoes e discussões ele sempre conduz o grupo inteiro para onde é melhor.
Dalton é casado com Aretusa, uma mulher muito extrovertida e atípica, uma piruá com consciência social, ambos tem uma ONG que trabalha com meninos e meninas que vivem em comunidades carentes no Rio de Janeiro e São Paulo, ela dá aulas de canto enquanto ele clinica para os que não tem plano de saúde, os cassos mais graves são atendidos no hospital do qual e sócio.
Como não poderia ser diferente, sendo filho de quem é, Junior tem uma personalidade centrada e em absoluto mediadora, sempre da prioridade ao bem comum do grupo, chegando mesmo a ser explorado pelos outros, tem uma atitude sempre tranqüila, sua frase preferida nos momentos de discussão e ânimos acalorados dentro do grupo é: - “Se cada um ceder um pouco, todos ficaremos bem”.
Semelhante ao casco de um veleiro, que é a concha externa do barco e abriga todos os componentes internos, de forma simétrica o casco dá equilíbrio ao veleiro e reduz o arrasto, por isso, evitando conflito em prol da paz e da tranqüilidade Junior sempre parece levar esse grupo na costa, se faltar qualquer coisa ou se rolar uma confusão, deixa que o Junior resolve.
Junior é Biólogo Marinho e Pesquisador, ex-militar dos fuzileiros navais, ativista do Green-Peace, alto e de corpo atlético, barba por fazer e longas madeixas, olhos impactantes e uma cara de roqueiro impagável, é divorciado de seu amor de infância Zaira, curadora de um museu em Amsterdã, onde mora com os filhos, o primogênito chamado “Dante” e a caçula chamada “Maia”.
Ao que pude perceber – apesar da pouca convivência – J.B. era como a “quilha” desse grupo, era um homem alto e magro, esguio como a prancha longa que se estende do fundo do barco, igualmente ambos tem funções imprescindíveis, aquele é o ponto de equilíbrio de todos e nunca permite que se afastem, está sempre pronto pra segurar as ondas, ao passo que aquela além de oferece um vetor de equilíbrio sob a água, impede que o barco emborque.
JB é viúvo e tem um filho chamado Junior, é um capitão-de-mar-e-guerra reformado, suas maiores paixões são os netos, o mar e os veleiros.
Homem simples acostumado as rudezas da vida militar, dedicou sua vida a marinha, viajou o mundo e navegou por todos os mares, criado desde cedo na rotina militar, filho e neto de militares. Uma pessoa extremamente adorável, centrada e com um senso de liderança invejável, intenso e desafiador, normalmente apenas observa as discussões, mas quando se envolve nunca desiste até vencer a questão, a menos que se consiga convencê-lo que não é bem assim.
Casou-se muito jovem com sua mulher Abnara, que em grego significa “luz da sabedoria”, todos concordam que ela conseguiu ensiná-lo a viver como um homem normal, sendo mais tolerante e amistoso. Com ela teve uma vida de aventuras e muitas mudanças, típica vida de militar, um filho e uma insuperável história de amor e cumplicidade. Sua mulher morreu a poucos anos, vitima de um infarto fulminante enquanto visitavam sua terra natal a Grécia, tendo sido lá também sepultada, sobre este assunto só pude saber isso.
A viagem para o Guarujá exigiu um pouco de preparação e táticas militares mas tudo deu certo ao final. De minha parte tudo certo, reuniões adiadas, suborno para as minhas filhas se comportarem enquanto estiver fora, convencer minha mãe a não embarcar em mais um cruzeiros e ficar um fim de semana lá em casa com as meninas, esconder as chaves dos carros e das motos e por fim, a mais cruel das missões, seqüestrar o note book, agendas e pager’s, celulares e a pistola da minha mulher, para poder chantageá-la. Por fim consegui lograr êxito em tudo, mas prometi deixá-la trabalhar no fim de semana, tudo bem, algumas horas sozinho com ela já é bem mais do que o de costume!
Saímos bem cedo, fomos até o heliporto e seguimos para o Guarujá, com o coração em frenético movimento pelo que me espera nem ao menos consegui aproveitar a paisagem, Clarisse (minha mulher) logo que decolamos encostou sua cabeça no meu ombro e pouco se importando com os cabelos desgrenhados suspirou e me beijando com delicadeza a mão balbuciou algo que meu coração escutou como um “eu te amo”!
Um dia um poeta escreveu que “o amor encontra culpas e desculpas”, estava certo, dois minutos depois ela lembrou de um caso e de outro, procurou o note book , tentou ligar e por fim, tive de beijar-lhe a boca e pedir de joelhos no meio do helicóptero a não sei que altura do chão pra ela relaxar, ela sorriu e me pediu desculpas, o comandante riu e tratou de colocar o “pé” no acelerador antes que Clarisse muda-se de idéia.
Ao avistar a casa fiquei impressionado, Uma casa paradisíaca em frente ao mar, soube mais tarde que havia sido possivelmente construída pelo famoso arquiteto americano Frank Loyd Wright em madeira e vidro, com amplo jardim e uma piscina, tinha mezanino em cima da casa coberto por chapéu de sol que o caseiro afirmava ter uns 100 anos e uma vista para o mar indescritível.
Todos estavam a minha espera e ficaram apreensivos ao verem um helicóptero causar uma bagunça sem precedentes, riram muito e também fizeram muitas piadas comigo depois por ter chegado de forma tão efusiva, me senti deveras acolhido por esta turma de baderneiros e boêmio irrecuperáveis.
O café da manhã estava servido, sendo honesto um banquete real, frutas e toda sorte de guloseimas, café e sucos, leite de gado e cabra, queijos e pães, manjares e delicias incontáveis, afinal instalado naquele pedaço de paraíso estavam umas vinte pessoas.
Sentados à mesa não consegui perceber quem estava ali como convidado ou quem estava servindo, quem era o dono da casa ou o visitante habitual, até um simpático labrador morrom estava comportadamente sentado ao lado das cadeiras degustando uma coisa ou outra que lhe davam. Só mais tarde percebi que apenas Rosalia e Marcos (os caseiros) com ajuda de Dona Cintia (a cozinheira) viviam ali naquele paraíso, os demais como eu, podiam apenas desfrutar, vez por outra, da experiência que era viver naquela casa.
Com o por do sol do primeiro dia veio o espetáculo maior, deitados numa rede na frente do quarto, escutando a cantoria desafinada de alguns seresteiros bêbados na praia, tive a mais romântica noite de amor dos últimos anos com a minha mulher, desejando mesmo que ela ficasse grávida ao raiar do dia.
Nos dias seguintes estávamos totalmente entrosados, pescamos e passeamos de lancha, as mulheres ficaram em casa, para temor dos casados, na companhia das namoradas dos solteiros, e pude conhecer melhor aqueles homens que do outro lado do mundo me fizeram sentir em casa, como eles mesmo se intitulam um sexteto nada fantástico.
Há muitos anos tive de fazer uma viagem de negócios, interrompida pelo furacão Katrina, dias num hotel e para minha surpresa vi um grupo de homens, brasileiros como eu para ser bem exato, distintos entre si e muito festivos, como quem não quer nada me aproximei e me deixei contagiar pela alegria.
A noite já adormecia e a manhã insinuava-se no horizonte quando tive coragem de perguntar o que faziam ali, tão longe do Brasil e de suas famílias? Para minha surpresa um silêncio sepulcral tomou todos de súbito, o mais sisudo e também o mais velho me respondeu: – “Honrando a memória de um velho amigo!” Bastou, um a um todos se levantaram e se ocuparam de alguma coisa, restaram apenas eu e minha boca grande sozinhos no bar do Hotel.
Mais tarde próximo da hora do almoço o velho sisudo, chamado por todos de J.B., me convidou para sentar-se à mesa com eles, titubeie por motivos óbvios, mas aceitei o convite, nenhum daqueles homens me rechaçou como imaginei no princípio ou me desviou o olhar, todos me acolheram e contaram suas histórias engraçadas e redescobrir o quanto o bom ser brasileiro.
A noite chegara e minha hora de partir também, no saguão enquanto encerrava a conta do hotel e me preparava pra sair J.B. me aborda e me pergunta se queria viajar com eles, digo-lhe que não vou para o Brasil, me olha tão fundos nos olhos que chego a me sentir invadido, é visível seu descontentamento, me pedi uma caneta e rabisca alguma coisa num pedaço de papel o qual coloca gentilmente no bolso do terno, duas batidas no peito e me da um abraço, me deseja boa viagem e me diz um “até breve”, como se tivesse plena certeza que nos reencontraríamos dali a poucos dias.
Durante o percurso do hotel até o aeroporto repenso os dias e me dou conta do papel rabiscado pelo J.B., retiro-o do bolso apenas um combinado de números e letras, algo que me parecia indecifrável, guardei novamente no bolso e segui minha vida, me pareceu uma última brincadeira, sorri e esqueci.
Dias depois, na verdade vários dias, tive uma reunião por demais importante, ao final dela sentia que o mundo estava sobre as minhas costas e todos os meus passos me pareciam impossíveis, resolvi ir até a copa que fica no setor do RH do escritório tomar um café, normalmente o único lugar em que tenho um pouco de paz, sentei à mesa e degustei umcafé novinho e torradas de alguém que iria ficar com fome, logo depois três entusiasmado estagiário de administração chegam e sentam do meu lado, no inicio não notei sua presença, algo que eles trataram de modificar.
A todo instante um solicitava números aleatórios dos outros para conferir alguma coisa em seu celular de última geração até que um estalo me ocorreu, coloquei a mão no bolso do termo e estava ainda ali o papel que J.B. havia me entregue no saguão do hotel, passei ao estagiário que exultou de alegria, eram as coordenadas de uma ilha no litoral brasileiro.
No mesmo dia incumbi minha secretaria de localizar tal ilha, seus habitantes e especificamente um homem chamado J.B., dei-lhe sua descrição e considerei tarefa cumprida, dias se passaram sem resposta até que um telefone resolve a questão. Naquela tarde uma senhora de voz mansa me deixa um recado, assim que o telefone repousou sobre a mesa corri para o elevador e me apresei em chegar ao lugar marcado, quando lá uma grata surpresa, todo o grupo estava reunido e tudo foi uma festa, não vi a hora passar, o telefone esquecido no carro descarregou de tanto tocar!
Aqui eu desejo abrir um parêntese.
O bom de já ter sido seqüestrado em São Paulo algumas vezes, de ser acionista majoritário de um grande conglomerado de empresas e de ter uma mulher procuradora de justiça é o fato de que quando você precisar ela vai te achar. No entanto existe nessa “vantagem” sobre os demais mortais, uma desvantagem, principalmente quando você ... (blá, blá, blá) e sua mulher chega com uma arma na mão vestindo um colete a prova de balas e uma dúzia homens armados até os dentes e lá fora helicópteros e cachorros, carros de policia e todo um aparato policial pra te resgatas dos seqüestradores, enquanto você está num bar na periferia portuária de Santos, sem terno e com a gravata amarrada na cabeça (como se fosse a faixa do Rambo), sentada à mesa num bar onde os únicos clientes são você e outros seis amigos, tendo sobre a mesa têm um numero incalculável de cervejas, copos quebrados e petiscos.
Isto posto e esclarecida toda a situação, todos combinamos de nos encontrar em alguns dia para conversarmos em um lugar tranqüilo, de preferência sem acionar a policia. Assim o fizemos nos reunimos por três dia em uma casa paradisíaca no Guarujá-SP.